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domingo, 4 de março de 2012

Cap. XI

Poderia deitar minha cabeça aqui no travesseiro e tentar dormir, porque sei que conseguiria tranquilamente. Mas os dedos coçam para eu escrever, e olha que não é nem lá pros dias 9, 10 ou 11.
Datas são datas. E logo eu que sempre fui péssima com elas, não me esqueço dessa. Eu que nunca reparo em cortes de cabelo, barbas feitas, se engordou ou não...consigo reparar em você, cada ruga nova em seu rosto.
Logo eu, que tinha prometido dar um tempo com as cartas, estou aqui, escrevendo outra. E não é de dor hoje. Hoje não.
Dei um tempo no meu livro, aquele lá, dos personagens que se encontram todo ano, como se comemorassem a data em que se conheceram. Cômico ver que o que comemoro aqui, é data da nossa despedida, logo eu que nunca saberei a data em que nos conhecemos. Me faltou agendas e diários naquele tempo.
Dei um tempo na leitura, acendi um cigarro, e coloquei um cartola pra tocar. Fui refletir sobre o que tinha acontecido. Mas refletir o que? Não aconteceu nada, absolutamente, nada.
Ou teria acontecido? Eu não sei ao certo como entender o que a vida nos proporciona. Eu poderia estar feliz, poderia estar triste, poderia ter esperanças com você. Mas tenho esperanças em mim.
E não tenho inspiração para escrever. Logo você, que sempre foi minha inspiração, hoje a tirou de mim.
Eu olho aquela nossa foto no mural e penso como foi bom aquele dia. Nós três. E estávamos tão prontos para o futuro, tão seguros do que seríamos daqui pra frente, ou do que poderíamos conquistar. Eu era leve, usava branco e não conhecia maquiagens.
Hoje em dia, só tenho peças escuras no guarda-roupas e não saio de casa sem o lápis no olho ou um corretivo para as olheiras. A mancha abaixo dos olhos é sempre fruto de algumas lágrimas ou algum porre de conhaque.
E nunca tive tantos amigos confidentes, como tenho hoje, depois de você. É que você era único. Sabia tudo de mim, me entendia como ninguém. E depois de você, todos os homens parecem ser iguais. E muitos se mostraram mais amigos do que qualquer outra coisa. E descobri que muitas pessoas sofrem do mesmo que eu: ir para o futuro, tentando encontrar, ou esperando o passado.
E hoje, eu poderia estar triste, chorar, e perceber como me lembro de você em cada detalhe de todos os dias da minha vida. E esses meses, não foram nada fáceis. Mas hoje, logo eu que poderia me lembrar disso tudo, hoje, eu ando pra frente. Porque o fato de você demonstrar que está aqui, me faz feliz. Você me responder nem que seja um seco e frio "obrigado", me faz feliz. E não é feliz por você, ou por nós. Mas por mim.
Porque sei que logo mais, não terei mais o sorriso bobo e sincero como eu tenho com você ao meu lado na nossa fotografia de 4 anos atrás. Mas terei um sorriso meu, um sorriso novo. E sei que seguirei meu futuro, esperando o futuro. Lembrando de nós no passado, como se o passado fosse uma parede em que eu me apoiasse quando talvez me desequilibrasse. Não seria mais o chão, a base que me sustenta.
Ainda és, ainda é o chão que me sustenta todos os dias nessa caminhada. Mas sei que um dia, seremos só a parede de cada um, com fotografias e quadros pendurados, em um corredor, em direção a um futuro. Um futuro lindo, e separado. E feliz.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Cap. X

Tentei dormir, mas claro, não consegui. Um pássaro lá fora me acordou, na verdade, ele interrompeu minha tentativa de dormir em meio a tantas lágrimas.
Porque dói tanto? Uma dor tão insuportável. Uma dor que sufoca, que mata, que prende, que mutila, corta a pele, impede de respirar, impede de enxergar.
Me lembrei no dia oito que era quase dia dez. Que bobagem a minha, outro dia dez. Outro que se vai. Outro que deixei ir. Outro que não soube amar.
Essa semana não pintei minhas unhas de vermelho, nem de azul. As deixei claras, queria mudar. Essa semana voltei a estudar, quis dar um foco na minha vida. É que vejo todos ao meu redor dando um sentido às suas vidas, e eu continuo parada aqui, onde você me abandonou. E não adianta vir me dizer que a culpa é minha. Eu sei com toda a clareza que a culpa é minha.
Onde parei nas nossas lembranças? Não sei, não consigo pensar direito ás duas e meia da manhã. Não tenho comigo um copo de conhaque, ainda mais nesse calor insuportável. Mas tenho um cigarro. Isso sempre ajuda.
Eu sei que você não gosta que eu fume. Mas ultimamente os cigarros têm sido os meus melhores companheiros, não só os caretas, como você bem sabe. E de novo me lembrei como você é hipócrita com essas coisas. 
Ontem foi a calourada. E eu ia lá só pra te ver. Desisti. Ainda bem, afinal, quantas calouradas já não passamos juntos? E aquela que você me convidou, com o maracatu no centro de São Paulo? É, eu me lembro bem desses encontros, e você, se lembra? Sempre que passo por aquelas ruas, me lembro de nós, lembro das batidas, lembro de você sorrindo, feliz, porque tinha entrado na faculdade. Me lembro de você dançando, e cantando as músicas da faculdade, depois se virando pra mim e dizendo "bem feito, quem mandou não passar na usp?". Ah, como você sempre foi grosso, isso nunca mudará.
Aqueles dias de verão não existiam namorados, não existiam amigos para você sentir saudades, não existia pressão, nem ciumes, nem mentiras, nem paixões, esquecimentos, brigas... aqueles dias eram reservados para nós dois. E acreditávamos nisso.
A luz do meu quarto queimou hoje. E procurar o cigarro no escuro dá muito trabalho. Não tanto quanto o passado, que me persegue, me assusta, me dói. Eu poderia namorar qualquer cara aqui fora, mas nenhum é assim, nenhum tem seu rosto, seus olhos, sua acidez nas palavras. Alguns tentam, é verdade, mas não conseguem ser você. E pensar que poderíamos ter sido tudo. Bom, você está sendo a cada vez que vejo fotografias novas suas. Você engordou nesses meses que estamos sem se falar, e isso é um elogio, pois está cada vez mais bonito, e cada vez menos sorridente.
o cigarro apagou, e eu sei que devria ir dormir, mas pra quê? Pra sonhar mais uma vez contigo, nesse aniversário da nossa briga? Eu sei que amanhã irei acordar com a cara inchada (de novo) e todos irão me perguntar se minha ressaca foi de uma noite boa pelo menos. Não, não foi. Não está sendo bom, não está sendo fácil, está dolorido. E toda vez que encosto a cabeça no travesseiro, eu choro por alguns minutos, até os olhos arderem tanto, a ponto de eu não conseguir abri-los, e assim, adormecer. Esse tem sido meu melhor remédio para a insônia. As lágrimas.
E meu cigarro apagou. O cigarro que você tanto odeia, o cigarro que você roubou da minha mão, aquele dia, anos atrás, no centro de São Paulo. Você deu um trago, apagou, jogou no chão. Me puxou com força para perto do seu corpo suado e cansado do dia que me convidou a dividir contigo. Me jogou contra a parede do restaurante que dentro, tocava sertanejo, deu uma risada da situação, da música, se nós dois juntos ali, tarde da noite em São Paulo. E me beijou, com força. Um beijo que durou minutos, horas.
Um beijo que eu não sei mais qual é o gosto. Porque o gosto não vinha da sua boca, vinha de você por inteiro, disponível ali, aquela noite pra mim. Estávamos começando algo lindo. E eu não se, eu pudesse adivinhar tudo o que restaria de nós hoje, não sei se faria tudo de novo. Acho que sim. Porque não me arrependo de um minuto sequer que passei contigo.
Me arrependo do fim. E isso, meu rosto inchado, as lágrimas caindo no teclado, meu coração dolorido e o travesseiro, sabem muito bem como me arrependo da forma como tudo terminou.
Parabéns pelos meses sem lembrar que eu existo. Queria ter essa facilidade em te esquecer. Desculpe, eu queria muito ter. mas sinto sua falta. É, eu sinto.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

dois mil e oito;



Eu poderia ter feito minha unha hoje. Poderia ter lido um livro, ter escrito um texto, poderia ter escutado qualquer música. Mas resolvi me lembrar de coisas que só fazem doer a alma.
É que o ano de dois mil e oito foi crucial no futuro que estou vivendo. O mundo de merda, na cidade cheia de lixo que vivo. E a indiferença é a pior dor que pode acontecer a um ser humano. A indiferença perante as injustiças, perante o amor que carregamos dentro de nós é o pior castigo, a pior cruz que podemos carregar nas costas.

Há um prazer gigantesco no ser humano em ver o outro sofrer né? Como se quem vê o outro sofrendo nunca tivesse passado por uma dor. Depois ninguém entende porque as pessoas bebem, porque as pessoas usam drogas, porque as pessoas entram em depressão. Só faltam rir da dor dos outros, e parece que dor não tem memória né? Você sente dor num dia, no outro faz doer a carne, o sangue, o músculo debaixo da pele. É um prazer que sorrisos maliciosos na cara deixam claro o sadismo do ser humano em ver outro sofrer. é isso.
E aí eu falo, falo, falo do ser humano, mas o mundo é uma bosta. Grande. Que fede. Você machuca, eu machuco, todo mundo sai dolorido dessa merda toda. Dessa cidade cinza.
Já dizia muito bem Criolo, “não existe amor em sp”. Não existe mesmo. E não pago pra ninguém provar.

Eu acendo um cigarro, e meu cinzeiro na janela está cheio de água por causa da chuva na cidade. Assim é mais fácil, apaga tudo facilmente. Queria uma máquina para apagar tudo de uma vez. Eu deito e não esqueço, sofro sozinha perante minha inutilidade nesse mundo. Saio pra beber uma cerveja, ninguém quer saber de educação. Educação pra quê? Sorrisos para que? Amor pra quem? É uma dor que se sustenta por anos, e ninguém um dia irá entender o que é saudade, ninguém um dia irá entender o que é a falta de alguém que está vivo e passa reto por você como se você não existisse. Ninguém irá entender a dor que não te deixa dormir a noite. Porque o peito dói. O coração dói. A cabeça dói. A alma dói.

É que o ano de dois mil e oito foi crucial para o futuro que estou vivendo. Um futuro presente na dor de todos os dias. Um presente que não enxerga um futuro melhor. É que dói.
E posso sair de fim-de-semana, e esquecer por horas a dor. Posso não mencionar seu nome por uma semana ou duas. Mas a realidade sempre te encontra. Então pego minha xicara de café, alimento um pouco mais minha gastrite nervosa, quem sabe ela não me tira desse mundo egoísta, desse mundo de dor, desse mundo de injustiça.

Na verdade, acho que Criolo estava errado, não existe amor em sp... não existe amor no mundo. É isso, não existe, nada, não há sentido em nada. Enquanto ninguém se levantar e se dar conta de que tudo está de ponta cabeça e errado, não existe nada. Quem me dera nós não existíssemos. Se você não existisse, talvez não doesse tanto. Mas se você não existisse, eu não estaria aqui. É isso, feche as portas. Feche os olhos. O mundo não merece as palavras dos poetas entorpecidos de esperança, entorpecidos de amor. Mesmo porque, amor não existe.
Essa dor é psicológica. Essa dor nunca passará enquanto a cabeça não acreditar que você não existe. Nada existe. É isso. Nada.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Cap. IX

Olha que bacana! Superei você! Ou eu acho, em partes. Não, não superei em termos competitivos como você sempre se mostrou. Mas lhe superei dentro de mim. Lhe superei segura, altiva, enobrecida, grande. Completa. Não se sinta feliz não... apenas se sinta aliviado de que talvez essa seja a última carta para você. vai saber né? Talvez eu lhe escreva aleatoriamente, quando lembrar de algum momento peculiar em que te envolveu. E vamos torcer para que não seja um momento em que eu lembre das suas escrotices como pessoa. Sim, escrotice. 
A bonitinha aqui não está mais escrevendo coisas bonitinhas para o bonitinho aí não. Aliás, bonitinho não é algo mais que vejo em você. Digamos que passei das fases de redenção, perdão, culpa, raiva, putaria e etc etc, e finalmente abri os olhos para o que você me era, para o que todos sempre me disseram de você. 
Por um tempo me perguntei se você era aquilo lá, que eu enxergava, ou era algo construído pra mim, por mim mesma. Comentei a amigos que você tinha mudado, que você tinha se tornado uma pessoa tão fútil, tão elitista, tão hipócrita com seus próprios conceitos, mas o que eu recebi em troca deles foi a frase: Ele sempre foi assim, você que nunca viu.
Não, não é raiva não, nem desgosto, nem nada parecido. Eu apenas estou vivendo a minha vida, seguindo o rumo e encontrando pessoas que são capazes de acompanhar o meu ritmo sem covardia, sem medo... mas com entrega.
Este exato momento você deve estar me odiando. E pra ser sincera, já não faz mais diferença se você gosta ou não de mim, se me odeia ou tem rancor. Eu não me importo pois sei que não fiz nada de errado.
E de não me importar, decidi que não quero mais recordar nada seu e ficar escrevendo essas cartas. É como eu escrevi no começo, talvez eu volte a escrever, e vamos torcer para que não seja sobre suas escrotices. Perdão do termo, mas ultimamente é o mais apropriado pra tratar sobre você!

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Cap. VIII




Hoje de manhã passei em frente ao cemitério da Consolação, e como se fossem cenas de um filme da Sofia Coppola, reparei nas  árvores, balançando com um vento leve, e o verde das suas folhas contrastando com o amarelo do sol, que queimava minha pele dentro do carro. Parecia até que dançavam no ritmo da música e dos ventos.
Hoje eu vi o sol surgir e sumir, senti o sol queimar minha pele, e depois senti o frio das gotas de chuva escorrendo no meu rosto, enquanto eu corria para o metrô. As estações passavam pelos meus olhos numa rapidez tão grande quanto o relógio que conta os dias que eu estou sem você.  Lembro daquele dia que fomos e voltamos de ônibus, ficamos umas duas horas ou mais andando pela cidade no ônibus azul, somente para não nos separarmos. Ninguém nos separava nos finais de semana, e aquele foi a nossa despedida. Cada um para um lado, e o destino insistiu que deveríamos ter a nossa chance. Tentamos, eu tentei, você tentou. Não deu. Ainda me lembro de você andando, me dando as costas, e uma despedida forçada por conta dos caminhos que seguíamos. Lembro de você posando para mim, debaixo do sol da manhã no parque ao lado da sua casa. Dei um trago no cigarro velho da bolsa e te desculpei. Te desculpei por ter sido tão inseguro anos atrás, e mais inseguro esses tempos. Também me desculpei, porque meu caminho eu não largaria por ninguém. Nem por você. Meus passos eu não deixaria de dar por outra pessoa, minhas noites eu não deixaria para nunca mais sonhar, te convidaria para dormir comigo, mas nunca deixaria de sonhar e ser eu, indivíduo, singular, única, por alguém.
Hoje lembrei que mesmo longe, ainda posso te amar, mas é um amor tão puro, tão raro. É um amor que deseja te arranhar a pele com toda força e raiva por tudo que você me fez. Um amor que deseja te abraçar e agradecer com lágrimas pelo tanto que me fez amadurecer. Hoje lembrei que não adianta tentar te esquecer, não adianta me afastar ou te xingar. Lembrei que é isso que dizem por aí que é viver. O mês acaba (mais um), e chega outro pra tomar o lugar.
Hoje soube que você tá indo para outro país, me perguntei se faria diferença, não, não faria. Minha vida segue, e segue com você, lado a lado da sua. Não significa que te esqueci, mas não é vivendo a anulação da minha vida que você voltará aos meus braços. Aliás, você nunca esteve neles. Eu sigo, sigo e sigo. Conheço pessoas, conheço conhaques, conheço camas, conheço sorrisos, conheço perfumes, conheço olhares, e podem todos me julgar, me chamando de errada mas eu acredito realmente que para cada ser há um amor. E meu amor por você, querido, continua aqui, mas é diferente, é um amor à distância, um amor de unhas e alfinetes, que insiste em perfurar minha alma me recordando de não esquecer nossa história.
É um amor que abre espaço para outro amor presente. Outro amor companheiro, um amor de dividir sonhos, planos e brigas. É amor... e há quem diga que não existe amor em São Paulo. 
É, eu desejei que não houvesse amor... 
amar dói demais.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Cap. VI - anexo



Entrei no quarto escuro enquanto no celular tocava Adele, decidi não atender e desmaiei na cama, tentando me esquecer dos sonhos que eu teria que enfrentar. Acordei estranha, fui ao banheiro e lavei o rosto com a água gelada cortando sobre a pele do meu rosto. Foi como se me transportasse para quando lavava minhas mãos brancas e trêmulas na pia do bar, com a angústia no coração pela possibilidade de te encontrar. Peguei na bolsa o maço de cigarros e o copo de conhaque, o bar estava cheio de pessoas solitárias que se escondem atrás de copos de cerveja e alguns drinks de nomes estranhos, pessoas egoístas e que vivem de aparências. Decidi aliviar a angústia com um cigarro na rua fria e gelada de são Paulo. Encostada na parede do bar, enquanto do outro lado da rua parava um táxi, com algumas pessoas e tatuagens a mostra no gelado da noite paulistana se apresentavam à alegria de uma juventude perdida em conexões e solitudes. Um trago e virei meu rosto como quem nada queria para a direita, e vi você chegando com alguns amigos. Passou reto por mim, me lançando um olhar como de alegria, nervosismo e indiferença. Morri naquele exato momento. E quando entrei no bar, você não falava comigo, olhava, como de disfarce de um homem perdido no tempo e nos próprios sentimentos. A cada gole que dava na cerveja na sua mão, me lembrava mais quando você ficava bêbado quando saíamos. Mas dessa vez não era eu do seu lado, eram outras, pra sua alegria, olha só, não era uma que estava do seu lado, mas várias, lindas, alegres, que dançavam. Só não se esqueça que essas pessoas ao seu lado, tão alegres, vivas e bonitas, podem te amar por uma noite, e depois te esquecer no dia seguinte com um homem bem mais bonito (e rico) que você. Isso não é amor, isso é fuga. Não se esqueça que a parte que você é hoje, é a parte que eu fui em você um dia no passado. Os passos seguidos e lentos me levaram ao ponto de ônibus que costumávamos esperar juntos no frio. Entrei no ônibus, sentei, coloquei a música mais triste que me lembrava você, e segurei o choro, seguirei, segurei. Um choro que se dissipou durante a noite toda me recordando a forma como sou insignificante pra você. Um choro que lavou meu rosto, meus objetos, minha alma. Um choro engasgado por anos, um choro que me trouxe dor de cabeça, e falta de ar. Um choro de arrependimento, um choro que queimava mais que o fogo em olhos de absurdos, em raivas, em sentimentos. Queimou, minha pele, queimou minha alma. O fogo da indiferença queimou meu coração. Talvez a esperança que eu tinha em sua volta, a esperança que eu tinha em tudo voltar ao normal, àquela amizade de anos atrás. Não te quero mais dentro do coração como um amor que se partiu, sofrer em vão. Te quero como aquele que sorria e contava teorias absurdas das coisas impossíveis e estranhas da vida. O desespero me toma quando percebo que você está se perdendo, e perdendo outros a sua volta, não somente eu, essa estranha pra você, mas todos que você perde com sua atitudes arrogantes e egoístas. No que você se tornou? Que pele é essa que você veste? O que te machucou? Quero a confiança de antes para poder te ajudar, não mais o fogo pra me queimar, me transformando em cinzas que uma dia, meu amigo, irão se dissipar pelo ar que você não quer mais respirar.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Cap. VII




Oi, pois é. Estou aqui novamente, e olha que engraçado como as coisas são, engraçadas até demais. Eu que havia decidido escrever essas cartas bobas para não te esquecer, esqueci que ontem fizeram dois meses. Ou foram mais? Não importa. Eu estava no meu quarto nesta tarde de sol fresco que batia na minha janela, olhando imagens e fotos de menininha no computador pensando em como somos ridículos quando nos apaixonamos. Acho que peguei aversão ao amor. Okay, estou fazendo drama, eu sei que não peguei aversão a isso. Mas hoje em dia é tudo tão diferente. É querido, eu lembrei, hoje. Talvez tenha me lembrado enquanto dormia, pois como você bem sabe, os sonhos não nos deixam esquecer nosso passado. Decidi abrir aquela caixa com capa colorida de balas e lotada de cartas de amigos e amores. Tente adivinhar qual carta estava em cima de todas as outras? A carta do dia em que te encontrei pela última vez, e claro que para me machucar só um pouco mais eu a reli, com todas aquelas letras garranchadas de sempre, e percebi que eu a escrevi no mesmo dia que te encontrei só que antes, de manhã, naquela sexta-feira de manhã. Na carta, descrevi o sonho que tinha tido com você naquela noite, e no sonho você me beijava mesmo estando com todas aquelas pessoas desconhecidas com você. Há quem diga que sou piegas, que me arrasto e tudo isso que você sabe muito bem, caso esteja lendo tudo isso, mas é que talvez eu esteja sendo muito dramática mesmo, ou esteja vendo sinais que não tinha percebido antes.
A carta descrevia o sonho, a festa, as pessoas desconhecidas e você me beijando no fim, um fim em que fui acordada com o sinal do celular, me avisando sobre uma mensagem. Adivinhe só, mensagem sua, me avisando que iria para a festa. O porque do aviso eu não entendo, não tínhamos nada, não éramos nada. nunca fomos, ou eu me enganei? Mesmo depois daquela festa, anos atrás, fomos algo? Não precisa responder, eu sei bem a resposta, você me disse na última vez em que eu te vi. O que eu queria entender era como as coisas mudam assim tão rápido, em minutos, segundos, em atos?
Depois daquela festa, aquela de anos atrás, em que estavámos bêbados, alegres, livres, felizes (eu estava pelo menos, e você parecia vestir muito bem o personagem da felicidade) como foi que tudo aconteceu? Eu insisto, mas não consigo mais me lembrar. Só me lembro que foi um mês, exatamente um mês em que saíamos todo final de semana juntos, não tinha uma sexta ou um sábado em que não saíamos, você até brincou na minha casa que já estava enjoando de mim, depois me beijou e disse que era brincadeira. O que um bico e uma feição triste de uma mulher não é capaz de arrancar de um homem, não é mesmo? hoje olho para as duas pessoas lá no passado e vejo como eram tão diferentes, éramos dois estranhos de nós mesmos. Pra quem passava todos os finais de semana, nem que fossem por um mês somente, sempre ao seu lado, dois meses sem ouvir sequer sua voz é demais, quase uma eternidade. Tirei suas fotos, guardei em um envelope com todas as cartas de amor que venho escrevendo há alguns meses, talvez pra provar a mim mesma que eu te amo... amei. Não estou em momentos de detalhes, minha vida não anda tendo muitos detalhes ultimamente, anda tudo muito igual, todos muito igual. Mas olhe só, depois de um tempo, me lembrei de você como há muito tempo não me lembrava. Me lembrei de você nas cores dos raios de sol batendo no jardim do quintal, no cheiro das flores de inverno. Me lembrei de você no toque dos meus dedos ao pegar a caneca de café, me lembrei de você no trago do cigarro, e te vi na fumaça que saía da minha boca. Me lembrei de você em cada palavra de cada música e cada som de cada violão que tocou na minha playlist essa semana. Me lembrei de você no metrô, e no ônibus, e no personagem da sua série favorita, que eu fiz questão de assistir todos esses dias. Me lembrei de você nos sonhos, mesmo quando era apenas um figurante nas cenas principais dos meus delírios, me lembrei de você no banho, no trabalho e ao escovar os dentes. Essa semana, eu me lembrei de você em tudo, todos os momentos. E me esqueci que faziam dois meses que eu escrevi aquela carta da última vez em que te vi. No final da carta escrevi ... me deixa ser livre? me deixa pelo menos uma vez nessa vida, eu ser feliz sem a sua presença nela? Isso é possível? Por favor, me deixa, é a única coisa que te peço...
E você deixou, sem ao menos ler essas linhas. Sumiu. Me deixou... é, não sou feliz sem a sua presença.
Entendi.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Cap. VI

Pois é, nunca achei que chegaria esse dia. Ainda não chegou, é verdade, e até lá ainda tem muito chão, mas o dia tá marcado na agenda que repousa em cima da minha escrivaninha. Daqui duas semanas, e o que pode acontecer em duas semanas não é? É, muita coisa pode acontecer em duas semanas, tanto quanto aconteceram em uma noite só. Uma noite em que tudo começa, e uma noite em que tudo termina. Festas tão diferentes, com pessoas, gostos e graus de alcoolismo diferenciados.
Pois é, tem dias em que eu não me lembro de você, e ás vezes eu entendo como um sinal bom, assim exercito na minha memória, fico te caçando nas lembranças pra você não morrer assim facilmente. Já não me recordo tão facilmente de você quando passeio em certos lugares. Alguns pontos da avenida paulista não me lembram mais você, mas um outro cara qualquer, como os bancos do metrô, um parque na barra funda, uma estação no centro de são Paulo... ops, não, essa me lembra somente você. Mas entenda que sua importância já não é mais prioridade pra mim. Pensei até em parar de escrever essas linhas tortas e letras garranchadas pra você, mas não consigo, mesmo porque as vezes me pego pensando em você numa música ou outra, ou quando estou feliz e vejo uma janela subindo no meu computador dizendo que você está online. Me seguro todas as vezes para não implorar por um perdão seu, ou te xingar com todas as minhas forças pela sua infantilidade em agir assim comigo. Me pergunto como você agirá quando finalmente nos encontrarmos, será que irá fingir que eu não existo? Que eu não significo nada, nem signifiquei nada pra você? Será que irá me cumprimentar como se nada tivesse acontecido? Ou será que estará com alguém que eu sei que vou odiar? Fazem tantos anos...
Pois é, e hoje acabei que não me esqueci de me lembrar de ti um minuto sequer. Claro que eu digo que é tudo passado, que eu superei tudo e etc, etc., então se eu superei, porque não sigo em frente sem você? Me boicoto de novo dizendo a mim mesma que e o que eu preciso realmente é olhar nos seus olhos e ver que sim, você não se importa comigo. Sei que meus amigos querem me matar por isso, e dizem cada vez que leem essas linhas que eu me arrasto por alguém que não está nem aí pra mim, mas o que eu posso fazer? Pois é, o que eu posso fazer? Só me resta então lembrar de momentos como daquela noite em que eu me arrastei para você vir comigo naquela festa na praça da árvore (e antes não tivesse ido). Ainda me lembro de chegarmos numa casa onde não conhecíamos ninguém, depois de um dia todo de passeio pela avenida paulista. E claro, me lembro da mãe do dono da festa, embebedando todas as garotas da casa com tequila e vodka, e você claro, já estava vermelho das bebidas. O mesmo dia em que me disse que eu te entendia, te convencia, te fascinava... foi o mesmo dia em que, eu já naquelas de estar bamba e de olhos pequenos, sentei no seu colo para a brincadeira com um copo na mesa, eu não me lembro. Você já estava pra lá de Bagdá... e insiste em dizer que quem te beijou fui eu. Pois é, sinto-lhe dizer que a sua mão na minha nuca, me puxando para um primeiro beijo não corresponde ao que você afirma. E foi como fogos de artíficio, entre duas pessoas que não conseguem se desgrudar, como se houvesse um imã entre dois corpos opostos, que se completavam por segundos. Cada segundo parecia uma eternidade. Mas o que me recorda não é isso, não o beijo, desse eu me lembro como fiquei vermelha e com vergonha, estava beijando meu melhor amigo. E agora? É e agora....?
Pois é, um café da manhã, com café preto e cheirando a sábado amanhecido, com bafo de tequila e olhos cansados, corpos adormecidos esperando uma cama para repousar e esquecer dos acontecimentos. Quantos eu beijei e quis esquecer, quantos conheci e nem sequer me lembrava do nome. Mas com você foi diferente. Pois é, eu esperava que o capítulo que traduzisse o beijo fosse mais do que isso que escrevi em linhas tortas. Me desculpe, eu sei que foi uma noite especial, pra mim. Eu sei que foi inesquecível, pra mim. Eu estava ali, em um verão há muitos anos atrás, beijando meu amigo, que tanto tinha me ajudado, beijando alguém que eu tinha conhecido um ano atrás, beijando alguém que eu sei que não seria igual aos outros, e não foi. Pegando o metrô da zona sul em direção à zona norte, na linha azul que transporta tantas almas vazias de amor e sonhos. Eu era a sonhadora do dia, e tinha alguém para compartilhar aquilo comigo. Estávamos felizes com nossa vida nova e nem sequer percebemos que essa vida iria nos separar da mesma forma que nos juntou. Eu sinto saudades, eu sinto remorso, eu sinto um ar de nostalgia que me envolve toda manhã, quando abro meus olhos sozinha na minha cama, no meu colchão, sabendo que talvez nunca mais terei sua presença na minha vida. Sabendo que talvez, você nunca mais converse comigo. Me desculpe querido amigo, mas é assim, pois é, é assim, é um capitulo que expressa mais meu medo de te reencontrar do que recorda o dia em que nossa história de Dois começou. Nosso primeiro beijo, eu sentada no seu colo, na frente de todos e nenhuma vergonha em expressar algo que estava dentro de mim e dentro de você há algumas semanas. Tudo se encaixou perfeitamente, suas idéias, meus sonhos, nossos planos, que nunca tiveram lugar em nós Dois.
Pois é meu amigo, somos uma agora, cada um seguindo um caminho. Um pra lá, outro pra cá. Posso ter beijados tantos e tantos, mas daquela forma, não foi nenhum. E o que será de nós dois? Não há carta alguma que possa responder... eu não posso responder, e sei que você também não quer saber mais nada nesse capítulo. que por coincidência (ou não) possui o mesmo número da data do seu nascimento. Nascimento na minha vida como alguém que não quer (queria) ser apenas outra amiga...

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Cap. V

O dia em que organizei minha mudança foi o mais difícil dos últimos tempos. Tive que empacotar tudo esperando pelo que vinha no futuro, em um lugar novo, com pessoas novas e um emprego de verdade. Não que os antigos não tenham sido, eram até mais reais que o atual, mas esse é como um resultado de anos que passei estudando, metade deles com sua presença em minha vida, e outra metade com sua ausência me fazendo falta.
Eu empacotei roupas, objetos e perfumes e cheguei na caixa colorida, em que guardo todas as cartas de amigos e amores perdidos nos anos da minha solidão coletiva. Achei essas cartas e esses pensamentos que nunca te enviei, e claro, você provavelmente deve estar em outro país. Sempre foi seu sonho... sonhos? Como cito meus sonhos nessas cartas adolescentes que jurei nunca te enviar, com meus sentimentos infantis e o esquecimento que se nega em não me abandonar.
Encontrei a carta que você me escreveu, a única, e não me refiro ao papel em branco que você me entregou no show de samba, dizendo pra você... uma carta de amor em branco. O que eu encontrei  refletia bem mais o que você sentia por mim, era uma carta um dia após a prova da usp. Aquela prova que terminamos e nos encontramos, jurando não comentar sobre nenhuma questão de matemática ou coisas afins que eu sempre odiei e você sempre foi bem. Aquele seu abraço dizendo que tudo ficaria bem eu não me esqueço até hoje. Me acompanhando até a rua augusta (sempre ela) para eu me encontrar com o meu namorado, e como vocês eram amigos naquele tempo, e comemorar o fim de um ano exaustivo de estudos que me provariam em um dia o que nunca podem me provar em anos. Provas e questões acerca de temas que não fizeram mais parte da minha vida daquele dia em diante. Ás 20h em ponto, daquele domingo de lágrimas eu fui conferir minha prova na lan house, com um copo de cerveja na mão..... e não me lembro de mais nada.
As lágrimas caiam tão rapidamente do meu rosto no mesmo ritmo que a banda de ska tocava no bar ao lado. Cada pessoa e cada cigarro que permanecia ao meu lado era um abismo que eu queria me afundar cada vez mais. Um ano jogado no lixo, um ano de sonhos que nunca poderiam se realizar, e então eu cai. Cai tão profundamente em mim mesma que já não me recordo de mais nada, apenas dele me segurando, e dizendo palavras que me soam gringas na memória. E você me segurando enquanto ele ia fazer não sei o que. Você me segurava e abraçava, enxugava minhas lágrimas e depois acariciando meus cabelos me dizia que tudo ficaria bem, que aquilo não era o fim. Eu não escutava, não escutava ninguém. Queria cair mais profundamente naquela solidão e desilusão que me assolava. Não tinha voz para gritar, nem olhos para abrir. E fui embora, não olhei para trás, não te dei parabéns pelo seu sucesso na prova, não me lembrei de você, fiquei em mim, parada, estática, morta.
E no dia seguinte você me enviou o email, nas primeiras horas do dia, em que tive força de aguentar as noticias do dia anterior. E você me xingou no email, com esse seu jeito grosso e sincero que só você consegue ter. Era o que eu  precisava ouvir, era o que precisava para continuar, e acredito que se não fosse pelas pelavras grossa e ao mesmo tempo reconfortantes, eu não estaria empacotando minhas coisas para sair de casa depois de tantos anos estudando o que me movia pra frente sem você. Porque foi isso que me moveu, a credibilidade que eu sabia que no fundo você sempre teve por mim, mesmo dizendo, anos mais tarde que era minha culpa não ter ido estudar com você, apenas para me ver vermelha de raiva, como você gostava tanto.
Eu juro que senti vontade de queimar essas cartas, e esquecer de vez meu passado que remete a você e seguir em frente, mas no fundo eu sei que não quero esquecer um minuto sequer que passamos juntos, e talvez esse seja o motivo das cartas que escrevi clandestinamente a você durante todos esses anos. Eu sei que um dia você vai me perdoar por eu ter exposto nossa vida... no fundo, você vai me perdoar, e mesmo que não assume isso, não vai mais fazer diferença no que somos hoje. Hoje não é mais aquele café ou aquele tapa na minha mão quando eu acendia o cigarro, hoje é distância, e uma certeza de quem em algum lugar do globo você deve estar rindo dessa lembrança que acabei de descrever.

domingo, 17 de julho de 2011

Cap. IV

Tenho fios em todo o meu quarto, fios que conectam vidas, conectam instrumentos. Aparelhos para cabelos, aparelhos para falar, aparelhos para escrever, ler, ouvir, fios e mais fios que não possuímos tantas tomadas para ligar tudo numa coisa só. E então acabou a luz!
O que fazer? Como fazer? Quando irei falar com você? Se meus dias eu passo a te esperar, para combinarmos um café ou um pulo rápido na paulista para dizermos: como vai você?
Conversas íntimas sobre psicologia e filosofia em meio a tanto caos, tanta alegria e tantos sentimentos dentro de uma avenida só. Não posso descreve-la assim como descrevo você, pois cada linha da avenida, cada prédio e o sol que se põe representam cada gesto e careta que você transforma em poesia.
E eu trouxe o telefone, preso por um fio da tomada da sala, disquei o número que me levaria a você e disse (como disse depois por tantos anos): eu preciso conversar, eu preciso sair.
Você topou, você me acompanhava, e saímos sem rumo, ou melhor, com um rumo: avenida paulista.
Andamos, retornamos, entramos em cada rua, por entre prédios, subimos no bar daquele lá, vimos a vista e você me falava sobre concretos, luzes, jardins, e planos para o ano em que um prédio somente seria o resto da sua vida.
Encontramos nossos amigos, fomos ao cinema no falecido Belas Artes, tiramos fotos.
As fotos mais lindas que eu pude ter comigo. Éramos três, éramos dois, um. As pizzas, os cafés, e o azul do céu que combinava com o azul da sua roupa. O amarelo do sol que contrastava com o vermelho do seu rosto, que ficou tímido quando sem querer descobri um segredo seu. O dia estava acabando, e você como um bom amigo, fiel, me apoiou dizendo: você é linda para ele, e eu te apoio no término. Se havia algo ali, eu nunca percebi... se aquilo era intenção, eu não percebi. 
Só percebo que cada fio que encontro no meu quarto, sempre me levava até você, e se for a espera que me espera, estarei ali, esperando você nesse meu amor preso nos tempos da informática...

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Cap. III

Me encontro, me disfarço, contrato, retenho, feita, não te refaço. 
Os raios de sol fora da janela refletem no muro amarelo, que contrasta com o céu azul, limpo, sem nuvens, apenas um avião que passa riscando o limpo e leve que o azul me traz, e me pergunto se você estará lá, partindo pro México, pro Uruguai ou qualquer outro país da América Latina, desenhando riscos de concreto em ruas estreitas e antigas, enquanto mulheres passam com vestidos floridos, vermelhos, voando com os cabelos ao ar, soltando fumaças pelas bocas vermelhas e peles de ouro.
Hoje desfiz meu contrato e te procurei cinco dias depois daquele mês. Te procurei nas fumaças de outras bocas, procurei no negro de outros olhos que contrastam com a luz que você me trazia, na companhia dos fios de seus cabelos que me prendiam como grades livres de qualquer rancor. Desfiz meu contrato, entrei no banheiro, deitei na cama, escrevi, li, reli, esperei, esperei e esperei uma resposta. Fumei, traguei, bebi um vinho, um conhaque, uma cerveja, vodka, tequila... um café. Nenhuma fumaça me tirava a essência que você deixou em mim. Te esqueço em alguns corpos e outros copos. Te esqueço em luares e sons, em risos e beijos. E nas manhãs seguintes acordo com outros ao meu lado, enquando nos sonhos você me persegue.
Hoje desfiz meu contrato. Falei com ele ontem, e fazem anos que ele terminou comigo, e você esteve lá do meu lado, dizendo que minha saia verde e hippie era linda demais para uma pessoa que não me merecia. Meus amigos dizem a mesma coisa sobre você hoje, que sou sentimental demais para alguém que não tem a simples coragem de me dizer que me odeia, se você me odeia. Ou que me ama, mas nunca amou, não, nunca amou.
Desfiz meu contrato, e ai de meus amigos quando lerem isso, me dirão: esquece, apenas esquece.
Como se fosse simples o esquecer de alguém que recorda a noite com a minha saia verde, hippie e comprida, que vesti no show do Jorge Ben Jor, em que pulamos sem parar e você me rodava na ponta dos pés e me abraçava sem interesse algum, dizendo que eu estava linda demais para alguém que estava a kms de distância e que não me merecia. Como se fosse simples o esquecer do seu rosto incrédulo quando disse que não teríamos pizza de janta, mas miojo, feito com batatas e cenouras após uma noite de show do Jorge Ben Jor. Logo você, que cozinhava tão bem, logo você que me acompanhou em tantos restaurantes japoneses depois da aula. Como esquecer enquanto penso que poderia estar na fila do pão, e todos me olhariam pensando que eu te encontrei, e na verdade só penso que na realidade eu sou bem mais sentimental que você. 
Na verdade, sou bem mais sentimental do que eu mesma acreditava que pudesse ser.
Então trago mais um pouco do meu cigarro, de um masso velho e amassado que você odiava, e bebo mais um vinho, enquanto o céu escurece e os raios de sol vão embora, levando as cores do dia, enquanto o tempo insiste em não levar você de mim.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Cap. II

Meu pobre amigo, desculpe dizer aqui nossa história, sua história. Mas isso vem me abalando por anos que a cada vez que ando pelas calçadas da avenida paulista, ou cada vez que aperto com o meu dedo indicador o andar para aquele bar que fomos, no sesc, eu me lembro de você. E é uma recordação involuntária.
Não pense você que desejo todos os dias lembrar de como me olhava e fugia com os olhos para os prédios da avenida, me contando detalhes e nomes que você sabia que  eu desconhecia, só para rir da minha cara com um ar de desdém de quem entende mais sobre detalhes em cimentos do que eu. Não pense também que não entendo de detalhes. Me lembro de cada minuto na sua presença. O tapa na cara, esse eu não lembro, ou deveria lembrar, porque foi a última noite que passei com você, que já não fugia mais de mim com os seus olhos para detalhes em concreto. Fugia de mim como um homem. Fugia de mim com uma desculpa de um cigarro ou uma bebida que deixava seus olhos vermelhos. 
Vermelho de raiva, vermelho de cansaço, vermelho de loucura, mas nunca vermelho de lágrimas.
Meu pobre amigo, me desculpe dizer aqui nossa história. Mas acontece que isso vem me sufocando há exatamente 25 dias. Cada dia em cada passo em cada olhar. Cada dia em cada beijo que me toma, e não são seus lábios. Cada dia um cheiro que nunca é o seu, e confesso, não saberia identifica-lo pois a vontade de esquecer já não me deixa mais lembrar do que eu nunca tive. E nunca tive seu cheiro.
Dentre tantos que deitaram na minha cama, o suor escorrendo em sua testa na nossa primeira manhã (nunca tivemos noite, nunca) é o único cheiro que posso lembrar em você. E tantos, mas tantos, meu amigo, que abraçaram mais forte que você. Tantos me amaram mais profundamente que você. Perco as contas de tantos que me escreveram cartas, dedicaram poemas e músicas que você nunca teve o trabalho de pensar um dia em fazer para mim. Tantos me beijaram e me deram um prazer melhor que você.
Mas me perdoe o Chico Buarque, podem ser tantos, mas nenhum deles tinha aquela expressão que você, meu amigo, tinha.
De medo de dizer que tinha medo de me perder.
Meu pobre amigo, me desculpe dizer aqui nossa história. Mas é o único modo que vejo de conter minha angústia, de aquecer minha alma e alimentar minha esperança de que, quem sabe um dia, eu seja famosa, e vai que você me procura dizendo: porque você contou nossa história aqui?

terça-feira, 28 de junho de 2011

Cap. I

Olhou pra mim desconfiado, sorriso de criança no primeiro momento. O "oi" foi igual ao de todos naquela sala de aula fria, congelada, lotada e solitária. As perguntas como "vai prestar o quê?" era automáticas em um primeiro dia de aula. Ele estava acompanhado da loira, mas me sorriu, perguntando o que eu queria fazer... disse "letras" ele riu, como se sabotasse meu sonho de entrar em uma universidade pública. Mas também riu de todos os professores e todo aquele sistema babaca para se graduar, a até chegar lá e até conseguir e até, até, até...
No dia seguinte ele estava lá novamente, ou teria sido no outro? Não me lembro, faz tempo, faz muito tempo, dias, semanas... na verdade, não minto, fazem anos. Ele sentou-se ao meu lado, ou era atrás? Tinha em mãos uma revista que hoje acho fútil mas nas aulas de física, as únicas em que ele prestava atenção, eram elas, as revistas que me salvavam dos cálculos que até hoje me são inúteis.
Terceiro dia ele deitou-se aos meus pés. Não porque me amava, isso ele nunca o fez, mas porque estava cansado, com sono, e as mesas da sala de aula eram desconfortáveis demais para o corpo robusto que ele possuía. Esqueci-me de descrevê-lo, pois bem... alto, cabelos cacheados, pele clara, rosto sempre vermelho e olhos que me remetiam ao céu.
Aquela foi a primeira semana. No primeiro mês ele já conhecia meu namorado da época, já eram amigos.
No segundo mês, estávamos almoçando juntos, eu, ele, os amigos dele, minhas amigas, nós. No quarto mês fomos visitar o MASP, e foi lá que descobri que ele era um artista, ou ao menos parecia assim.
Em seis meses ele me ouvia dizer cada sílaba de juramento de amor ou palavrão que eu pronunciava ao meu namorado da época. Ele era meu amigo, meu querido amigo...
E hoje, anos depois, como eu desejo que aquele que habitava o corpo robusto, bobo, engraçado e de rosto vermelho de vergonha em público, nunca tivesse abandonado o que hoje me deixa saudades, me propõe dores, raivas, angústias... não, não é mais meu amigo querido, é uma sombra desaparecida de meu passado.